• Amanda Mesquita

Comunicar é preciso?

Encontrei as ilustrações da Keren Rosen por acaso, enquanto estudava sobre as necessidades da comunicação dentro dos relacionamentos humanos em época de redes sociais e gestões corporativas agressivas. O que eu penso sobre comunicação hoje em dia está totalmente desconstruído e a expressão artística da Keren conseguiu mostrar exatamente como sinto.

Falar. Ouvir. Escrever. Ver. Minha opinião é que as bases da comunicação estão por onde se passa naturalmente nossos sentidos. E é importante entender a comunicação como uma expressão vital da energia humana, animal, vegetal. Para comunicar, precisamos estar vivos, em conjunto, e dispostos a entrar empiricamente no mundo do outro.


Fico pensando em como podemos estar verdadeiramente conectados uns aos outros quando terceirizamos nossos sentidos. Quando habilitamos nossos olhos a enxergar apenas dentro de um retângulo luminoso. Ou quando somente colocamos nossos ouvidos a escutar mensagens previamente categorizadas por um código numérico.


Se comunicar é preciso, como o ditado bem diz, por tradição então não somos obrigados a nos comunicar. Comunicar é necessário sim, indispensável pra nossa sanidade, mas não é uma escolha aleatória. É verbo de ação que se passa, preferencialmente, fora da zona de conforto. E nos últimos anos, parece-me que estamos cada vez mais caminhando para uma era sem comunicação, acostumados coletivamente em um processo automático em que cada palavra perde cada vez mais os sentidos e somos levados a interagir cada vez menos com nossas diferenças. E eu me questiono a todo tempo quem semeia toda essa dinâmica?


Meu sentimento é que enquanto comunicadores não mais plantamos ideias, ou ideias, a serem discutidos, questionados, pensados. E enquanto comunidade, estamos freneticamente acostumados a receber pronto os conteúdos, numa doentia forma de adestramento a não se pensar fora da caixa. Individualmente, não nos damos conta do que significa sermos informados dentro dessa esfera de operação, altamente doentia, catastrófica e ineficaz para a humanidade.


Eu demorei pra me ver como comunicóloga. Quando recebei meu diploma de jornalismo e ali observei o termo oficial da área que tirava o bacharelado, torci o nariz. Imatura, ainda acreditava que estaria num mundo profissional repartido. E por ironia do destino, o único lugar que consegui me estabelecer profissionalmente não foi numa redação, mas em ambientes corporativos altamente integrados dinâmicos e desafiadores.


Em meus 20 anos de carreira vivenciei na pele todas as mudanças que a comunicação coletiva pode proporcionar. Não foi difícil entrar de cabeça no esquema multidisciplinar. Logo na primeira grande experiência profissional fui cobrir as três frentes que eram os carros chefes da área até então: publicidade, jornalismo e relações públicas. Logo percebi que não seria apenas uma simples jornalista. Minha estrada era outra!


E aí foi quando se deu minha primeira grande ruptura de paradigmas profissionais.


Trabalhando em empresas, aprendi a diversificar meu instinto da comunicação. E percorri um longo e consistente caminho de pedras para ter algum sucesso na minha área. E por sucesso entendo como as pequenas sementes de empatia que plantei em cada projeto que assumi. E também, a crescente segurança de apostar no meu próprio taco, onde a minha opinião também tem validade: é a minha forma de contribuir trabalhar com esse formato vital de se plantar a comunicação social.


Quando plantamos, estimulamos a terra. Semeamos. Esperamos o resultado. Conquistamos flores ou frutos. O impacto de uma comunicação efetiva não é validado apenas por cálculos numéricos ou filtradas em análises de riscos ou ainda por SEO nenhum de respeito.


Nossa sociedade ainda exercita um funcionamento padrão de acumulação. E aí estamos cambaleando em um tipo de comunicação de conteúdos inúteis e formatos obsoletos. E eu me pergunto: até quando? Pra mim então fica bem claro: não é preciso mais comunicar dessa forma.


Dentro de todos os negócios que atuei meu foco era sempre no humano. Eu trabalhava sempre para pessoas. Com pessoas. E meu nível de dedicação e fidelidade, aos poucos, foi ficando cada vez mais sólido nessa questão.


Em uma instituição, de acordo com o modelo de negócio praticado, como profissionais de comunicação, somos direcionados a praticar um tipo de abordagem altamente relevante, produtiva e absolutamente invisível. O analista de comunicação - como chamam àqueles que se dedicam à comunicação institucional, dentro de um modelo estratégico, garante o cumprimento de seu dever quando vende o discurso do seu gestor, de ponta a ponta, sem ser descoberto. Ele é o responsável por ser a ponte de informação entre o gestor e a grande população de pessoas que estão dentro e fora dos muros de uma empresa. Sem ser visto, fortalece a imagem, a marca, o serviço, o produto.


Com a entrada de novas medias, eu vi a comunicação empresarial caminhar por território altamente agressivo. Colocaram freio no processo de vitalidade comunicacional onde o fator humano é prioritário e, na prática, transformou-se em foco tudo que é objetivo numérico. Me vi tendo que reaprender a profissão. Produzir relatórios cada vez mais complexos e numéricos e, sem isso, ter tempo de efetivamente observar e praticar, genuinamente, o processo de comunicação humana.


E é então, que acontece a minha segunda ruptura profissional.


Estava me perguntando cada vez mais se aquele tipo de comunicação que eu fazia era necessário, útil. E era infinita a angustia de todas as respostas que dia após dia me chegava à mente. Refletia cada vez mais sobre minha parte de responsabilidade social dentro das empresas que atuava, para poder comunicar com integridade valores fundamentais do negócio que eu defendia. Eu estava plantando boas sementes no terreno da minha comunidade de gestores, clientes, comunidade, funcionários?


O comunicador tem por centro - ou deveria ter - a consciência desperta para olhar adiante e ser nunca a âncora, mas a vela que pode dar ao navegador a chance de seguir longe com o vento. E então, desperta em mim essa necessidade de não ser apenas mais uma analista de comunicação institucional. E comecei a me posicionar contra tudo aquilo que eu acreditava que seria prejudicial, em primeiro plano, para as pessoas. E depois, por consequência, para o negócio.


Dessa forma, iniciei meu declínio profissional dentro das empresas cuja estrutura de gestão não eram inovadoras ao ponto de se garantir jogar fora de uma zona altamente confortável. Acredito que ao final dessa década estaremos todos rompidos com esse modelo de negócio onde os comunicólogos são estratégicos para reforçar uma imagem útil para as empresas. Isso porque acredito que, como seres humanos, em comunidade, não sobreviveremos mais neste modelo social que corrompe nossos necessidade mais básicas de sentidos comunicacionais.


Meu sentimento é que estamos todos prestes a entender, finalmente, a essência da verdadeira comunicação social. Que é simples. Que passa por cima de teorias, números, modelos e padrões. E tem muito mais haver com escuta, olhares, comportamento e empatia. Quando tudo isso estiver nos trilhos, aí sim, comunicar será sempre preciso. E estaremos todos bem.



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